Mama Mundi




Mama Mundi

Data lançamento : 17 de julho de 1998

A mãe do mundo que gerou Gagárin gerou também Mestre Vitalino, o primeiro homem a sair como um feto para fora da atmosfera e o artesão que extrai formas vivas do barro da terra. Essa imagem, sugerida na música que dá nome ao novo disco de Chico César, Mama Mundi, diz muito da experiência das últimas gerações que viveram a passagem fulminante dos nichos regionais ao sentimento planetário. Ela é bem marcada nesse paraibano de Catoté do Rocha cujo pai, seu Francisco (que entreouvimos cantando na “Dança do Papangu”), praticou os reisados nordestinos desde sempre, por tradição familiar, enquanto o menino, levado pela onda dos tempos, se desgarrou e se cosmopolitizou, ganhando trânsito pelo Brasil e fora dele. Como outros músicos brasileiros que passaram do sertão ao mundo, Chico César é um étnico literalmente descolado, nativo de um espaço sem porteira, dançando de propósito uma dança que “imbalança” entre Okinawa e Aquidauana.

O disco se compõe de músicas expressamente dançantes, como a já citada “Dança do Papangu”, o forró “Nego Forro”, o coco ‘Aquidauana”, o samba-enredo “Sonho de Curumim”, ao lado de canções líricas, como a luminosa declaração amorosa “4h e 15 ou l0 p/ 3”, a cortante “Tambor”, tendida para o b!ues, o assumido romantismo de massas de “Pensar em Vocé”, a misteriosamente linda “Talvez Você”, a toada com sabor cabo-verdiano (também chamada “morna”) “Barco”, e recriação sutil de “Sou Rebelde” (sucesso de Lilian pós-Leno nos anos 70).

Em Mama Mundi a dança é várias vezes, além de apelo rítmico primeiro, motivo de meditação sobre a vida social e o destino humano. Em alguns casos a desaceleração rítmica deixa isso mais evidente, como em “Folclore”, xote-reggae que fala de um batuque maranhense – o lelê (“fui no lelê pra dançar lelê iá, dançava eu querendo me acalmar / pra entender, ler e escrever / mentalizar, dizer os mistérios do lugar”). O mergulho no universo interno à dança popular maranhense desperta o sentimento presente das carências do país e a canção termina, certamente não por acaso, com um rasante e surpreendente “discurso” visceral sem palavras.
“A Força que Nunca Seca”, parceria com Vanessa da Mata, já gravada por Maria Bethânia, não deixa de ser também um poema cantado sobre e dança-de-trabalho com que a mulher pobre leva a lata d’água na cabeça, mantendo o delicado “equilíbrio cego” que faz a lata, quase sem esforço visível, “ficar reta”, parada em seu movimento pela “estrada morta”, levada pela “força que nunca seca”. Destaque-se aí a participação (sutil) do músico africano Basuru Jobarteh e a percussão de Marcos Suzano e Naná Vasconcelos.

“Dança”, que já fazia parte do CD ‘Aos Vivos”(que consagrou Chico César junto com a canção “Mama África”), volta agora, regravada, em Mama Mundi com boas razões. É uma canção sobre o caldo de cultura geral em que fermentam ao mesmo tempo as comunidades rurais e as tribos urbanas, com referências à América (“dança sobre as roças mortas de aipim”), à África (“dança a moça triste do Benin”), à Europa (“anjos nos céus de Berlim”), e à Ásia misturada ao mundo São Paulo (“Osasco / Osaka / rosa / bomba / maca / ossos do office-curumim”).
É esse mesmo sentimento de aldeia globalizada que anima, por sua vez, o samba-enredo “Sonho de Curumim”, que fecha o disco em ritmo de “guerra / carnaval das nações” e “tróia no xingu”.

Na sintonia fina de letra e melodia, Chico César continua com os achados, trava-línguas e trocadilhos lúdicos com que faz as palavras dançarem conforme a música. A “Dança do Papangu” (referência à personagem brincalhona e zombeteira dos reisados) se propõe a empolgar humoradamente, num verdadeiro festival de “uus”, sem “tchan” nem “U2”, sem “tchururu” nem “tchurururu”, tanto a Lady Diolinda do MST quanto a Lady Zu do soul e discothèque, derivando no final para um clima funk. Os chamegos clássicos do baião e a gemedeira em “ui” e “ai” (“quem tá dentro não sai”) comparecem no fluxo silábico do forró em “Nego Forro”, onde o violão de nylon de Chico César e o violão de aço de Mário Manga compõem juntos nos entremeios um empolgante e descarnado forró-de-viola.

O mote de “Aquidauana” é uma espécie de adivinha multicultural, repicando ditongos aparentados de palavras indígenas e orientais: “o que há / e o que não há / em Okayama e Okinawa / pro povo de Aquidauana / eu vou ter de perguntar”. O jogo de palavras dá lugar a um longo e saboroso repente, ritmado por Naná Vasconcelos, brincando com o enigma das diferenças nos usos, costumes, modos e jeitos dos lugares. A faixa abre com sons de rua em Istambul, gravação direta feita por ocasião de uma das inúmeras tournées recentes de Chico César por esse mundo de Mama. Vale frisar, aqui, que a produção do CD (de Mário Manga, assistida por Chico César e Swami Junior) não satura tecnicamente os materiais sonoros nem cresce sobre as canções como um rolo compressor armado literalmente do recurso anabolizante dos compressores, ultimamente hipervalorizados. Prevalece a respiração adequada a um disco que tem também muito de yin. No caso, a voz do “muezim” turco, ouvida no começo, retorna depois por um momento e, bem a propósito, pairando sutilmente sobre o coco de “Aquidauana” como um aboio onírico.

Falando em sonho, os arranjos de Nelson Ayres para as canções lentas acompanham primorosamente tudo que há nelas de transparência e leveza. É o caso de “Barco”, em que os harpejos e frases do violão contracenam com as cordas, fundidas aos sons eletrônicos programados por Sacha Ambak. Ou de “Sou Rebelde” e, mais ainda, “Talvez Você” (parceria com Vicente Barreto), em que as frases descendentes do violão, junto com “glissandi” acústicos que se confundem belamente com “glissandi” eletrônicos, sustentados por cordas etéreas, ora alongadas ora recortadas, criam um clima de suspensão sutil em que se fundem algo como vento vago, lembrança fluida, silêncio latente, desejo flutuante.
E falando em desejo flutuante, a última palavra vai para a amada desejada em “4h15 ou 10 p/ 3”, menina-senhora na luz do horizonte, para a qual tudo se entrega ao som das gaitas-de-fole do mundo. A salvação, em Mama Mundi, se houver, está escrita no nome: é mulher.

José Miguel Wisnik – março/2000

O que se falou

“… bem servido de arranjadores, chico césar conta ainda com a nata da percussão brasileira no cd….. Além de marcos suzano, que participa em quase todas as faixas, o músico tem o reforço de naná vasconcelos em “a força que nunca seca”, já gravada divinamente por maria bethânia, e em “aquidauana”, esta última um delicioso coco sampleado. como bom herdeiro de luiz gonzaga e de jackson do pandeiro, chico não poderia deixar de gravar um forró no disco. “nego forro” tem tudo para estourar nas casas de forró paulistanas, frequentadas hoje pela classe média alta da cidade…”
tom cardoso – folha de são paulo (ilustrada) – 13/03/2000

“… mama mundi é um disco fortíssimo, profundo, com subtextos (literários e musicais) a explorar por muito tempo. o impacto dele é comparável ao que provocaram os discos de ruptura, no fim dos anos 60, de caetano veloso e gilberto gil. é quase um disco de tese (quase porque sua beleza é mais evidente do que seu fundamento ideológico): chico césar está apresentando uma solução estética possível para a questão da pós-modernidade. trabalhando com opostos, conciliando contradições, fez um disco fulgurante, esclarecedor: talvez não seja definitivo,pois ele tem mais inquietações
com as quais nos provocará. que seja em breve.”
o estado de são paulo – 18/03/2000

Aos vivos

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